Artistas: Coletivo Escola Livre de Arte Subversiva – ELAS. 2012, Ceará-Portugal. Instalação. II MMPMA.

Esta performance foi realizada em 2010 na cidade de Fortaleza, no Brasil, no “Seminário Internacional Arte Pública Relacional como Prática Social”, ocorrido nos dias 23 a 28 de agosto.

O trabalho consistiu em andar por um espaço público e aos poucos se auto carimbar com o nome “Mulher brasileira”. Depois de carimbar-se toda, olhando para um espelho que retiro da bolsa, passo exacerbadamente um batom vermelho nos lábios e nas partes íntimas, seios, vagina e bunda (sobre a roupa). O trabalho teve duração de uma hora aproximadamente.

No percurso da ação ocorreu interacção com público que ocupava aquele mesmo espaço. Na praça estava acontecendo o evento que reunia artistas interventores, músicos, pesquisadores, artesãos, moradores do bairro e o público em geral. Desta forma penso que a reacção daquelas pessoas estava directamente ligada ao perfil das pessoas que estavam ali naquele momento, ou seja, não era um púbico comum, tinham suas especificidades, eram parte de um mesmo nicho social.

Inicio a acção agindo como uma simples participante do evento e, conversando com amigos, começo a marcar o meu próprio corpo. É então que me despeço daquele grupo e começo a percorrer a praça parando em alguns momentos para marcar-me mais um pouco. Sento no chão, no meio da praça, e marco todas as minhas pernas. Depois, em outro momento, marco os meus braços. Foi então que comecei a pedir para que as pessoas me carimbassem em lugares que eu não podia ver, como nas costas. Depois começo a levantar a roupa para carimbar as partes íntimas do meu corpo. Percebi que neste momento comecei a chamar mais atenção. Marco as partes íntimas da frente por cima das peças íntimas que usava. Depois começo a interagir com homens que passavam por mim oferecendo-lhes o carimbo para que marcassem a minha bunda. Depois de cerca de uma hora, no meio da praça, finalizo o trabalho retirando um espelho e um batom vermelho da bolsa. Paço por cerca de cinco minutos o batom na boca e por volta dela e depois marco minhas partes íntimas com ele.

A acção gerou vários tipos de reacções, desde olhares desconfiados, até pessoas que parabenizaram o trabalho. Um rapaz homossexual pediu que eu o carimbasse sua bunda. Uma moça soltou palavras como “é isso aí, mulher é só bunda, só carne”, parecia que ironizava. Outras mulheres pediram para ser marcadas com o carimbo e saiam dizendo “sou sim, muito brasileira”. Homens também pediam para serem carimbados. Muitos me pediram explicação para tudo aquilo, eu ficava calada na maioria das vezes, sabia que só a acção já falava muito, as palavras não faziam parte da obra, meu corpo e o que eu fazia já falava muito.

Através desta acção tento materializar um sentimento que tenho com relação a mulher brasileira dentro e fora de seu país de origem. Assim utilizo o carimbo como objecto que taxa e marca outros corpos como a si mesmo. O batom vermelho traz um símbolo de beleza, sensualidade, mas também de dor. O espelho participa da obra não como objecto que intensifica a formação do ego deste modelo de mulher construído socialmente, mas como testemunha de um auto reconhecimento desta mulher marcada e estereotipada, abrindo possibilidades de processos de resignificação de identidades.

Texto retirado de: http://corposmapeados.blogspot.com/2011/